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Dismorfofobia corporal - o complexo de Quasímodo

Margareth dos Reis

Os médicos muitas vezes descrevem algumas doenças com nomes assustadores. Mas às vezes essas palavras enormes descrevem situações comuns e, às vezes, com capacidade de ameaçar a vida das pessoas. Por isso, é tão importante conhecê-las.

Esse palavrão -- dismorfofobia --, feio e assustador, não é novidade: está descrito no dicionário como "medo patológico de ser ou de se tornar disforme". Essa descrição se aplica a várias situações que vemos no cotidiano, todas envolvendo o mesmo problema: uma pessoa excessivamente preocupada com a forma do corpo, ou com a forma de uma parte do corpo. Tão preocupada, que isso passa a ser central em sua vida, ocupar seu pensamento e suas ações exageradamente. Patologicamente. A dismorfofobia é uma doença psiquiátrica descrita e não somente um sintoma de outras doenças.

Quem já não conheceu alguém que diz "tenho um nariz muito grande" ou "minha barriga está enorme"? Todos nós temos alguma insatisfação qualquer com o nosso corpo. Isso é normal. O que diferencia essa sensação daquela de pessoas que têm dismorfofobia é o grau em que isso ocorre e principalmente o prejuízo à vida da pessoa, por exemplo, impedindo-a de sair de casa ou gerando quadro de desnutrição graves (a pessoa não come para não engordar e inicia quadro de anorexia, por exemplo, que exige internação hospitalar).  

A dismorfofobia também pode ser chamada de síndrome da distorção da imagem. É quando a menina adolescente magérrima se olha no espelho e enxerga uma mulher obesa. É quando o rapaz que tem uma pequena pinta no rosto a enxerga como uma grande mancha. A mulher que não sai de casa enquanto o cabelo não estiver tão liso como o da modelo que apareceu na televisão. O homem que acha que tem o pênis pequeno, quando na verdade está na média de tamanho da população. Defeitos muitas vezes imperceptíveis para as outras pessoas são grandes problemas para quem tem dismorfofobia e acaba se achando parecido com Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, da obra de Victor Hugo.

Acredita-se que cerca de 1% da população sofra do transtorno dismórfico corporal, mas essa taxa sobe muito se considerarmos somente as pessoas procurando as clínicas de cirurgia plástica ou de urologia: entre estas, até 10% têm a dismorfofobia. São pessoas que, por desconhecimento da doença, em vez de procurar o profissional da saúde mental (psiquiatra ou psicólogo), vão direto ao cirurgião para corrigir o problema, e acabam se submetendo a várias operações (no nariz, nas mamas, lipoaspirações) sem ficarem satisfeitos. Claro, não há problema a resolver no corpo, só na mente mesmo.

A causa da doença não é conhecida, mas sabe-se que pessoas com depressão, com neuroses e com transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) têm uma tendência maior a também apresentar o complexo de Quasímodo, de estarem o tempo todo avaliando e criticando o próprio corpo, tendo uma autoimagem deturpada. Essas pessoas sofrem. Algumas têm ideias suicidas -- embora raramente relatem isto espontaneamente ao médico, caso não sejam questionadas. O cirurgião plástico deve investigar a insatisfação do doente com o seu corpo, a realização de cirurgias repetidas, a expectativa de que a cirurgia plástica vá resolver um problema que não existe realmente, assim como estado depressivo ou psicótico (já existem questionários próprios para isso) e encaminhar o paciente para tratamento para a depressão e psicoterápico. Depois, com os sintomas psiquiátricos controlados, o paciente poderá até voltar ao plástico para corrigir os problemas que realmente existem.

Porém, muitas clínicas de cirurgia plástica e de urologia podem estar se beneficiando de pessoas que procuram esses serviços sem terem deformidades, anormalidades e nem corpos diferentes ou menos estéticos. A maioria dos homens procurando ajuda para corrigir o que eles chamam de "pênis pequenos" na verdade não têm tamanho de pênis anormal, estão apenas insatisfeitos. O mesmo provavelmente ocorre com o tamanho das mamas das mulheres.

 

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